O futuro do jornalismo entra em pauta na universidade

Vinícius Farias, estudante de jornalismo da UniRitter, entrevista Simas - Crédito Giovana K. Folchini/ Agex
Vinícius Farias, estudante de jornalismo da UniRitter, entrevista Simas – Crédito Giovana K. Folchini/ Agex

Os alunos de jornalismo da UniRitter participaram no segundo semestre de 2015 da II Semana de Jornalismo Avançado, que aconteceu entre os dias oito e 10 de setembro, com atividades simultâneas nos campi Zona Sul e Fapa. Este ano o tema do evento foi o ‘Jornalismo 2020: as transformações do campo profissional nos próximos cinco anos’. O assunto surgiu diante da conquista da nota 5 no MEC, e do compromisso em manter e melhorar o curso de Jornalismo, mesmo com o cenário de transformações que estamos enfrentando.

por Gabriela Freitas

Diversas são as discussões acerca do futuro do jornalismo, das mídias tradicionais e do profissional responsável pela elaboração da notícia. Tanto nos veículos quanto nos bancos da academia, debates sobre novas fórmulas para a produção de conteúdo, para divulgação de informações e para “prender” a atenção da audiência acontecem diariamente.

O debate realizado com alunos de jornalismo de variados semestres da UniRitter trouxe à tona as possibilidades e alternativas para a atuação no ramo do jornalismo nos próximos anos, a fim de que os futuros profissionais possam se preparar para enfrentar o novo cenário do jornalismo. Versatilidade é a palavra-chave dos próximos anos, afirma o diretor de jornalismo do grupo Bandeirantes, Renato Martins. “Foco e determinação; ousadia e criatividade; pensamento coletivo; bom humor e equilíbrio profissional”, são os conceitos primordiais para aqueles que querem crescer na profissão, declara Martins.

O professor de Redação Jornalística da UniRitter, Rodrigo Lopes, ressalta a importância de conhecer o público para o qual se está escrevendo. O docente coloca ainda que estamos numa era da interpretação, logo, cada vez mais o jornalista tem o papel de incentivar o debate de questões relevantes à sociedade.

Diversos acontecimentos fazem o ativista digital e autor do livro ‘O Filtro Invisível’ Eli Pariser indagar de que forma serão as notícias num mundo pós TV: qual o impacto que terão? Como irão chegar aos leitores se esta construção “passar para a mão” de códigos ao invés de editores humanos?

As mudanças tecnológicas também tiveram seu impacto. Afinal, o modo como as notícias são transmitidas afeta profundamente seu conteúdo. (…) A palavra falada sempre se dirige a um público específico; o surgimento da palavra escrita – e especialmente da imprensa – modificou essa situação. Ela efetivamente possibilitou o surgimento do público geral (PARISER; 2012, p.54).”

Conteúdo no jornalismo

Além da preocupação com o formato do conteúdo que é oferecido aos leitores, ouvintes ou telespectadores, a determinação do que será oferecido também entra na pauta de discussões nas redações. Com as mídias tradicionais lutando pela audiência, que cada vez mais está migrando para a internet, o jornalismo busca se reinventar.

Como um dos diferenciais que este profissional pode oferecer à sociedade o repórter investigativo da Record Matheus Felipe defende o jornalismo investigativo e uma atuação não tão convencional. Almeja que os jornalistas saibam humanizar as matérias e que com elas consigam fazer a diferença no dia a dia das pessoas.

Trabalhar o conteúdo na internet requer atenção especial do profissional da comunicação. O editor de Internet do Jornal do Comércio, Paulo Antunes, foi um dos primeiros jornalistas a trabalhar com a edição de textos na internet no Rio Grande do Sul, em meados de 1995. Antunes explica os desafios de atuar no meio digital: “O site é como uma mesa que depende dos quatro pés: tecnologia, comercial, marketing e conteúdo ou serviço. Se falta um pé, a mesa cai”. O editor comenta ainda que não basta ter uma boa ideia ou uma boa escrita, é necessário pensar em novas formas de buscar por informações como o jornalismo investigativo e o jornalismo de dados, que se tornam uma característica da profissão para o futuro, em que a verificação das informações e o cruzamento destas são necessárias para a construção de uma reportagem pertinente e relevante ao cidadão.

Perfil do ‘novo jornalista’

Mariana Oselame, editora de esportes da RBS TV e professora da UniRitter faz esta reflexão acerca da transição do jornalismo quando se está em uma empresa.

 “Quando sair do foco e tu ver que desviou do teu caminho para, pensa e lembra o que te fez querer o jornalismo.”

A dica pode servir tanto para estudantes quanto para profissionais que estejam passando por um momento de busca e recolocação do mercado de trabalho.  Barbara Nickel, gerente de Produto no jornal Zero Hora reforça esta ideia: “É necessário pensar onde e como se quer trabalhar”. Haverá lugar para todos os profissionais que estão se formando nas redações existentes? O que fazer? Como fazer? São alguns dos questionamentos feitos por estudantes, jovens jornalistas e profissionais que se veem novamente batalhando por uma posição no mercado de trabalho.

Jornalista Bárbara Nickel - Crédito: Lauro Alves/Divulgação
Jornalista Bárbara Nickel – Crédito: Lauro Alves/Divulgação

Há oito anos no periódico e hoje atuando junto ao desenvolvimento de produto, Bárbara Nickel diz que os jovens, que hoje estão cursando jornalismo, deveriam ampliar seus horizontes e não ter somente como foco a atuação em veículos tradicionais de comunicação como o jornal impresso, a televisão e o rádio.

O empreendedorismo e o incentivo a novas iniciativas surgem a cada dia como alternativas para os profissionais. Bárbara coloca que cada vez mais aparecem pessoas dispostas a “pensarem em outras maneiras de utilizar aquilo que aprendemos em sala de aula para fazer coisas legais para o mundo; para ajudar as empresas a se comunicarem com seus públicos; ou até um produto financiado pelo próprio leitor – com aquilo que ele deseja consumir – e que não passe por toda a rede burocrática de um grande veículo”.

As principais características elencadas por Bárbara para aqueles que atuarão na profissão nos próximos cinco anos está: o conhecimento das ferramentas que estão disponíveis no momento para realizar a cobertura ao vivo, e se manter informado sobre as novas ferramentas.

Para aqueles que ainda estão indecisos, a gerente de Produto dá uma dica: “Se coloque no papel de leitor. Você lê o jornal, assiste ao Jornal Nacional ou escuta o Correspondente Ipiranga todos os dias? Se a resposta é não, como você pretende trabalhar num mercado que você mesmo não consome? A questão é descobrir o que e onde as pessoas buscam, então, a informação”. Ser curioso e pensar além do que lhe é mostrado são características importantes, assim como prestar atenção ao que está acontecendo no mercado da comunicação, a fim de perceber as possibilidades que surgem.

Bárbara Nickel em conversa com estudantes de Jornalismo da UniRitter, campus Zona Sul - Crédito: Leandro Osório
Bárbara Nickel em conversa com estudantes de Jornalismo da UniRitter, campus Zona Sul – Crédito: Leandro Osório

Sobre o futuro da profissão, o assessor de imprensa e coordenador da PlayPress, Marcelo Matusiak, também destaca algumas características para o bom jornalista: ter domínio de linguagem; apuração correta sempre; entender do jornalismo de dados; ter noções de marketing e empreendedorismo; e saber valorizar a participação do cidadão no jornalismo. Reforça ainda que o profissional de jornalismo daqui a cinco anos terá de ser cada vez mais instantâneo e multitarefa: “A agilidade é um conceito que o jornalista tem que ter sempre em mente, e se tiver que fazer tudo, vai ter que fazer”.

Uma das tendências que está crescendo na área do jornalismo são as agências de conteúdo. Empresas focadas em produzir conteúdo especializado para revistas, jornais e portais da web estão substituindo, aos poucos, as redação de publicações – principalmente as mensais, afirma José Francisco Botelho, editor na República Agência de Conteúdo.

Novas mídias

Uma das ferramentas que vem ocupando lugar na vida dos leitores são as mídias digitais. Blogs, sites e redes sociais estão ocupando cada vez mais espaço no universo da notícia. Mídias tradicionais como jornal impresso e a televisão sofrem com a debandada dos leitores e telespectadores para as novas mídias, e vivem uma batalha diária para tentar se reinventar.

Jornalistas já estão se adaptando a este novo formato de se comunicar, criando páginas digitais e perfis em redes sociais para entrar em contato com o público.

Sara Bodowsky, jornalista multimídia do Grupo RBS, defende que “a vida é muito curta para ser vivida na zona de conforto”. Esta reflexão também representa a profissional. Largou a carreira na área do Direito, para se dedicar ao jornalismo. No início da faculdade já encontrou sua vocação quando, então, se tornou estagiária na Rádio Gaúcha. Poucos meses depois já assumia seu primeiro programa nas madrugadas da emissora. Desde então não parou, atuando também na TVCOM e Rádio CBN.

Hoje a jornalista comanda o ‘Roteiro da Sara’, programa de rádio e blog – atentando para o este novo perfil de conteúdos multiplataformas.  Na página, os internautas acompanham as dicas que mesclam viagem, turismo e gastronomia. Ao longo das matérias transparece a paixão de Sara sobre o tema. A jornalista apostou em um projeto digital sobre um assunto que gostava e o resultado foi certeiro: o sucesso. “Quando se faz o que ama não se tira férias. Temos que reaprender a ‘fazer nada’”, ensina Sara.

 Crowdfunding – como tornar um sonho realidade?

Empreendimento, ideias, projetos, novas mídias e novos públicos. Termos estes que povoam o imaginário de jovens que escolheram a comunicação como área de atuação no século XXI. Mas como viabilizar estas ambições? Onde atuar? Há mercado?

César Steffen participa da II Semana de Jornalismo Avançado -Crédito: Giovanna K. Folchini/Agex
César Steffen participa da II Semana de Jornalismo Avançado -Crédito: Giovanna K. Folchini/Agex

Sobre como executar novas oportunidades, o professor e pesquisador da UniRitter César Steffen fala sobre a utilização do Crowdfunding para o financiamento de ideias como uma alternativa para tirar do papel projetos de livros, exposições e documentários. Docente do curso de Mestrado em Design e dos cursos de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e de Design da instituição, Steffen elucida as possibilidades de financiamento da economia criativa para diversos mercados, seja na área da produção cultural, como shows, CDs ou livros; seja para a área do design, como o desenvolvimento das impressoras 3D.

Conforme o publicitário, “crowdfunding é uma forma de fazer uma vaquinha em nível global”, ou seja, é uma maneira de financiamento onde se busca recursos financeiros junto a pessoas que se identificam e tenham interesse na iniciativa proposta. A diferença deste modelo para uma ‘vaquinha’ é que, obrigatoriamente, se terá alguma forma de retorno para aqueles que contribuírem com a causa.

Como fazer uso deste método?

Steffen defende que é necessário uma ideia que seja suficientemente inovadora e interessante para tornar o projeto viável. Outra questão pertinente abordada é a conveniência de conhecer bem a plataforma na qual irá inscrever o projeto. No Brasil existem 66 plataformas de crowdfunding, sendo que destas, 59 estão ativas. O primeiro site criado para este fim foi o estadunidense Kickstarter. No Brasil, a maior em volume de recursos angariados e de projetos é a Catarse.me.

O professor reforça a importância pela busca de formas alternativas para viabilizar projetos, e resume em cinco dicas a forma para aumentar a chance de sucesso destes nos sites de financiamento coletivo: 1. Tem que ter relevância; 2. Clareza de objetivos; 3. Recompensas claras e mensuráveis; 4. Um bom vídeo para a apresentação da ideia; e 5. Utilização das redes sociais (on e off-line) para a divulgação.

Representação sindical: importância da união da categoria

Reconhecimento do diploma e distribuição igualitária dos espaços entre canais são passos necessários para o avanço do jornalismo no país. Temas estes que também permeiam os debates sobre o futuro da profissão. Para debater os rumos do jornalismo nos próximos cinco anos, o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (SindJors), Milton Simas, apresenta algumas das medidas que estão sendo trabalhadas pelo órgão em prol do reconhecimento e valorização da categoria.

Milton Simas, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul - Crédito: Giovana K. Folchini /Agex
Milton Simas, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul – Crédito: Giovana K. Folchini /Agex

Instigado a falar sobre o papel da comunicação na sociedade atual e as dificuldades que os profissionais estão encontrando nos últimos anos, tanto em questão ao desempenho da atividade, como ao mercado de trabalho, Simas comenta a batalha da categoria pela aprovação do Projeto de Emenda à Constituição (PEC 206/2012). Esta define a obrigação do diploma de jornalismo para atuar na profissão, principal bandeira da luta da entidade, e que voltou a ser pauta no Plenário este ano, podendo ter um desfecho até 2016.

O tema desperta interesse nos estudantes, pois entendem que estas decisões afetam diretamente o futuro de suas formações. Aliado a esta questão, o presidente do sindicato comenta sobre a realidade dos veículos brasileiros, que estão concentrados nas mãos de poucas famílias, levantando a questão de que as mídias regionais acabam produzindo pouco ou nenhum conteúdo, e sim apenas reproduzindo o que o oligopólio encaminha. Por esta falta de conteúdos próprios e regionais, um mesmo fato acaba aparecendo, da mesma forma e repetidas vezes ao longo da programação.

Outro ponto reforçado pelas colocações do jornalista, é a necessidade do profissional de jornalismo oferecer uma cobertura séria, imparcial, e se dedicar a verificação dos fatos, a fim de contribuir para a credibilidade da categoria, independente do veículo e linha editorial em que esteja atuando e que, só unidos poderão alcançar objetivos comuns.

ALU201321094

Alunos Graduacao Jornalismo ZS

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